segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Minha pequena bailarina


Eu estava em um dia comum, voltando para casa. No caminho, não pensava em nada a não ser em tudo que precisava estudar, em tudo que precisava fazer e tentando achar um meio de mudar tudo que não estava do jeito que eu queria, na minha vida. Por isso, ia mal-humorada sentada no metrô.
Eu cheguei em casa e procurei abrir as janelas e me dirigi ao quarto, onde sempre deixava a minha bolsa.
Foi quando a vi.
Fiquei muito mais surpresa que assustada.
Era uma garotinha. Não podia ter mais que seis anos de idade. Seus cabelos eram azuis... e estavam presos em um uma espécie de coque no alto da cabeça, era possível ver algumas pequenas flores cor de rosa como a segurar o coque. Ela estava vestida com um lindo vestido de bailarina, quase do mesmo tom de seus cabelos, um azul celeste. O vestido possuía detalhes em prata no corpete minúsculo e a saia possuía várias camadas de tule.
Eu podia vê-la de perfil de onde estava. A menina estava sentada, muito delicada, com as mãos sobre o colo. Em seu pescoço havia um delicado colar de pérolas e eu percebi que ela calçava sapatilhas de balé cor de rosa e seus pezinhos estavam parados em uma das posições do balé, mas ela não parecia fazer esforço, era como se seus pezinhos tivessem parado naquela posição naturalmente.
Eu me aproximei um pouco mais e notei que ela chorava. Chorava de uma maneira sentida, o que me comoveu ainda mais por ser um choro silencioso. Seu corpinho de vez em quando se movia, com um soluço leve.
Foi quando ela olhou para mim.
Sua pele era branca. Os olhos pareciam duas lagoas profundas, eram olhos grandes, de um tom de cinza que eu jamais tinha visto e possuía cílios muito longos, que estavam molhados de lágrimas. Sua boca pequenina não emitiu nenhum som, mas seus olhos encontraram os meus e foi como se os reconhecesse.
Não consegui falar, não sabia o que dizer, só pensava em como gostaria de encontrar um sorriso naquele rostinho frágil ao invés de olhos tão tristes.
Ela se levantou e lentamente, ainda olhando em meus olhos, sem que eu esperasse, tentou me abraçar alcançando a cintura e como não conseguiu, abraçou uma das minhas pernas.
Ela era tão pequena... Seu choro agora não estava mais silencioso, ela soluçava e seu desespero me tocou. Não percebi quando uma lágrima rolou pelo meu rosto.
Com algum esforço, fiz com que ela soltasse minha perna e me abaixei para abraçá-la, ela enlaçou meu pescoço com os bracinhos pequenos e encostou a cabeça em meu ombro.
E chorou por um longo tempo.
Eu a levantei do chão e ela ficou assim em meu colo. Estávamos abraçadas por um longo tempo, até que seus soluços foram diminuindo e devagar coloquei minha mão em sua cabecinha e ela me olhou, não sorriu, seus lábios formavam um biquinho que estava tremendo, provavelmente segurava a vontade de continuar chorando.
Meu olhar para ela deve ter sido de muito pesar, porque ela me olhou preocupada e logo senti as mãozinhas segurarem minhas bochechas com muito carinho e um beijo foi depositado em uma delas.
Pensando nesse momento depois, nunca entendi como uma pessoa racional como eu, podia estar ali, com uma menina de cabelo azul, que eu não sabia de onde tinha vindo, sem trocar uma palavra e agindo como se a conhecesse há muito tempo.
Levei-a comigo para a cama e a fiz sentar em meu colo, de frente para mim. Ela me olhou com seus grandes olhos cinzas e fez um biquinho, olhou para as mãozinhas que estavam sobre seu colo e mais uma lágrima rolou pelo rostinho branco...
Ainda temendo quebrar o momento mágico, mas querendo desesperadamente fazer alguma coisa para ver naqueles olhos pelo menos um pequeno brilho de alegria, perguntei, num tom que mais pareceu um sussurro:
- Você quer me contar porque está chorando?
Ela fechou os olhinhos apertando-os e chorando mais, abraçou novamente meu pescoço e numa voz doce e melodiosa, disse entre soluços:
- Eu... era... uma bo-borboleta. Eu... só se-sei voar... mas... não co-consigo mais...
Eu não sabia o que dizer. Não é possível que eu estivesse perdendo a sanidade. O corpinho pequeno e com medo que me abraçava naquele momento era muito real.
Fiquei assim, sem saber o que dizer por muito tempo, não sabia como ajudá-la. O problema dela parecia agora, muito maior que os meus e eu não sabia o que fazer.
Ora, isso é o tipo de coisa que acontece em contos de fadas, mas porque eu estava na história? Logo uma pessoa tão realista como eu?
Ela não me pediu ajuda, mas me olhava com expectativa, parece que ela acreditava realmente que eu pudesse fazer alguma coisa por ela...
Eu não sei ao certo em que momento a idéia me ocorreu, mas de repente me lembrei que ela usava sapatilhas de bailarina... e eu não dançava há tanto tempo...
Mesmo sem saber direito o que estava fazendo e se aquilo era mesmo o certo a fazer num momento como aquele, decidi. Olhei para ela e tentei o meu melhor sorriso, tentando ser confiante e apontando para suas sapatilhas cor de rosa eu disse:
- Você sabe o que é isso?
Ela balançou a cabecinha lentamente dizendo que não.
- Pois eu vou lhe mostrar...
Eu a segurei nos braços novamente e lhe coloquei de pé. Ela levantou a cabecinha para me olhar... para ela eu era muito alta. Segurei suas mãozinhas pequenas e levantei seus bracinhos, eles formaram um arco por cima de sua cabecinha. Ela olhou para um bracinho e depois para o outro e não disse nada, mas eu ri da expressão de dúvida de seu rostinho, como se me achasse maluca. Seu olhar desconfiado me obrigou a dizer:
- Tudo bem, solte os braços então... só... me acompanhe.
Comecei a dançar, mas apenas um passo de cada lado de forma a montar um ritmo. A garotinha relutou um pouco, mas começou a me acompanhar...
Nada e ninguém no mundo poderia ter me preparado para o que aconteceu em seguida.
Assim que a garotinha começou a dançar, uma música, vinda não sei de onde, começou a tocar e a garotinha começou a dançar de uma maneira graciosa, leve e empolgante ao mesmo tempo, seu rosto acompanhava os movimentos dos bracinhos e os passos foram ficando na pontinha do pé, desenhando belíssimas piruetas e saltos dignos de uma grande bailarina...  
Eu estava encantada. De repente, eu a ouvi dizer:
- Ju, é como... é como... voar!
Ela parou de dançar, olhou-me com seus grandes olhos cinzas agora vibrantes e realizou aquele que havia passado a ser meu maior sonho: deu-me o sorriso que me pareceu ser o sorriso mais lindo do mundo... Ao colocar ambas as mãozinhas no queixo, correu para me abraçar... Eu não consegui me conter, chorava e sorria... Era como se nada no mundo importasse, a não ser o sorriso daquela garotinha de cabelo azul. Eu a peguei novamente no colo e ficamos girando pelo quarto, ela de bracinhos abertos, rindo... uma risada cristalina e alegre.
Mais tarde naquele dia, conversamos muito. Eu ainda não sabia explicar como uma personagem de contos de fadas tinha ido parar no meu quarto. Ela me contou que vivia em um mundo encantado, antes ela era uma borboleta azul com detalhes cor de rosa...
Ela não sabia porque havia se transformado numa garotinha bailarina,  nem sabia como havia ido parar no meu quarto.
Mas eu sabia.
Ela estava ali, por minha causa.
Deus queria me fazer entender que as mudanças eram necessárias.
E as mudanças podem ser: reinventar o que já temos ou criar algo novo. O importante é nos fazer feliz.

2 comentários:

Alexandre Cunha disse...

Olá, Nailah,

Fico feliz por você ter alcançado de alguma forma o Tipo Escrito. Quero agradecer o comentário deixado na página e o convite para visitar o Sonhos em Parágrafos. Muito interessante a atmosfera fantástica que imprime em suas histórias. Percebo que as borboletas são presenças marcantes em dois posts. De fato, são elementos que nos aguçam a inspiração, ou seja, se formos espertos, estaremos sempre próximos a uma borboleta.

Um abraço.
Alexandre.

Monise Gabriely disse...

Olá! Gostei do teu texto. Já estou seguindo teu blog.
Beijos!
http://monisegabriely.blogspot.com/

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